O TEMPO E AS JABUTICABAS

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Resolvi dar um tempo por hoje. Talvez volte mais tarde, talvez não. A semana foi por demais irritante para mim. Crise, crise, crise e mais crise. Nem a acachapante popularidade de Lula serviu para silenciar essa gente, que parece ainda mais disposta e sedenta por nos aterrorizar. Para terminar a semana, um jacu endinheirado e megalomaníaco cai em desgraça e faz de Minas Gerais motivo de chacota nacional. Tenham certeza, o castelo do nosso Lord Farquaad caipira vai ser a atração principal do Fantástico, do Domingo Espetacular, enfim, a troça da domingueira televisiva.

Vou dar uma folga até para a agenda do governador, aliás, ele vai hoje passear em Brasília, assinar não sei o quê na embaixada americana e depois encher o saco do Presidente Lula, mais tarde, o de sempre, só festa.

Por hoje é só isso, além do mais, minhas dores nas costas voltaram e preciso dar um jeito nelas. Enquanto isso, eu vou refletir sobre as jabuticabas da minha vida, sinto que é hora de fazer um balanço.

Até a volta.


PS.: Dê um pulinho lá na Casa de Rubem Alves, pois é um passeio que vale a pena.


O TEMPO E AS JABUTICABAS

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.

Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio. Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que, apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de "confrontação", onde "tiramos fatos a limpo". Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado de Deus. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.

O essencial faz a vida valer a pena.

7 comentários:

Adir disse...

Lindo texto.

Anônimo disse...

Lingua Literária...

Maybe Tomorrow disse...

Perfeita reflexão ! Excelente viagem: " Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…"

Lingua de Trapo disse...

Obrigado Adir, Anônimo e a você também Maybe Tomorrow, pois inclusive já estou acompanhando o seu brandnew blog.

Raimundo Wilson disse...

Não encontrei o artigo na "Casa de Rubem Alves".
Poderia informar onde o encontrou ?

Raimundo Wilson disse...

Não encontrei o artigo na "Casa de Rubem Alves".
Poderia me informar onde o encontrou ?

Lingua de Trapo disse...

Raimundo, eu encontrei este poema quase por um acaso. Como sou um grande apreciador da pretinha gostosa e, esperançoso de encontrar um técnica da moderna fruticultura para poder ter à minha disposição um exemplar, florindo e frutificando a curto prazo. (pois já me encontro com 45 anos e, desde os meus 10, minha mãe promete plantar uma, mas dizia que levaria muitos anos até produzir, mesmo assim nunca plantou) Pois bem, se ela tivesse plantado há 35 anos atrás, com certeza não nos teríamos encontrado aqui.
Mas de volta ao assunto, encontrei o poema do Rubem Alves quando, em busca de uma muda mágica, que produzisse em pouco tempo, digitei o nome da frutinha que tanto cobiço na caixinha de desejos do Todo Poderoso, o Google. Foi então que surgiu este poema, entre dicas de cultivo, fotos, receitas de doces e até aguardente. A casa do Rubem Alves adicionei mais tarde, mas o texto da postagem talvez tenha retirado de um destes links que te envio agora. Um abraço e obrigado por ter visitado o Língua de Trapo.
http://www.kplus.com.br/materia.asp?co=865&rv=Cigarra

http://versoeprosa.ning.com/profiles/blogs/o-tempo-e-as-jabuticabasrubem

 

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