LIÇÕES DE COMO SEPULTAR UM JORNAL EM COVA RASA

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Por Rui Martins
publicada em: 25/02/2009

O NEGACIONISMO POLÍTICO DA FOLHA DE SP

Berna (Suiça) - O bispo inglês Richard Wiliamsson acabou expulso da Argentina por negar a existência do Holocausto e das câmaras de gás na Alemanha nazista, fazendo nisso parceria com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Diversos professores universitários europeus, militantes da extrema-direita, tiveram processos, perderam a cátedra e foram condenados por terem colocado em dúvida a solução final de Hitler.

Por que tanto rigor ? E a liberdade de cátedra e a livre expressão ? quem leu 1984 do inglês George Orwell lembra-se que o personagem principal trabalhava no departamento de informação e sua função era ir reescrevendo a história ao sabor do Big Brother. Os jornais eram refeitos, heróis desapareciam ou se tornavam traidores, nesse mundo sem liberdade.

Reescrever a história, apagar todos os traços de crimes cometidos para deixar uma imagem positiva e favorável à posteridade, sempre foi o desejo dos ditadores. Donde a necessidade de se preservar a memória da população do nosso planeta, para que não se esqueça dos crimes hediondos cometidos. A memória viva é a garantia da não repetição das atrocidades do passado e a possiblidade de se impedir a tempo qualquer tentativa semelhante.

Para isso se constróem museus, erguem-se memoriais e monumentos, gravam-se os nomes das vítimas no mármore, filmam-se os sobreviventes, escrevem-se livros com depoimentos, em diversos lugares do mundo, e, ao mesmo tempo, não se permite demolir provas capitais como o campo de Auschwitz. O objetivo é o de preservar a memória para se evitar a repetição dos crimes.

E para se evitar que saudosistas dos carrascos neguem as evidências, decidiu-se, em respeito às vítimas, punir os chamados negacionistas desejosos de reescrever a história sem os crimes cometidos por seus heróis.

Quando o falecido pastor James Wright e o cardeal Evaristo Arns empreenderam a tarefa de coordenar a documentação histórica dos crimes da ditadura militar brasileira, surgiu o nome Nunca Mais. Ou seja, que isso não possa nunca mais se repetir, que as novas gerações sejam informadas de como uma ditadura militar derrubou um governo legalmente eleito, prendeu, torturou e matou milhares de brasileiros, muito deles inocentes.

A Operação Condor e as ditaduras militares do Cone Sul que agiam de maneira coordenada na repressão a todos os aspirantes da democracia e liberdade, na nossa América Latina, foram fatos históricos, com seus crimes registrados e os nomes dos torturadores e assassinos arquivados. A juventude de hoje, vivendo uma outra realidade, poderia desconhecer totalmente o período sombrio da censura nos jornais e nas artes, cinema e teatro, das prisões na madrugada e dos desaparecidos ou napalmados se todos os crimes, abusos e violências não fossem repertoriados, gravados e transformados em depoimentos históricos.

Negar ou tentar amenizar os anos da ditadura militar, considerando-a ter sido uma ditadura branda é cometer crime de negacionismo. É tentar minimizar os malefícios do período discricionário com a intenção de deixar aberta a porta para novas ditaduras. É querer reescrever a história, para logo mais transformar os criminosos em heróis e as vítimas em culpados. O negacionismo cometido pela Folha de São Paulo, num editorial e corroborado online, é grave por ser um jornal, um órgão de informação, que dispõe de meios para reverter a verdade histórica e assim justificar sua cumplicidade com a ditadura, ainda no nosso passado recente.

Não se deve apenas protestar, assinar manifestos e abaixo-assinados denunciando-se o saudosismo negacionista da Folha de São Paulo. A bem da história e para se evitar repetições criminosas e desastrosas é preciso punir-se o negacionismo político daqueles que negam ou procuram minimizar nossos vinte anos de ditadura.

O negacionismo da ditadura brasileira e dos males causados ao Brasil deve ser encarado como uma atitude revanchista de cúmplices dos ditadores. Seus autores devem se retratar ou serem afastados de funções de influência junto à opinião pública. Uma lei com o mesmo peso da lei anti-racista acabaria com o saudosismo da Folha de São Paulo, que numerosos depoimentos confirmam ter colaborado com a ditadura.

5 comentários:

Dois disse...

A ditadura no Brasil foi forte, matou, torturou, e ainda existe, nas figuras da Polícia Militar, políticos da "velha guarda", políticos filhos destes que hoje perfazem a "vanguarda", a tal Democracia que não passa de um disfarce, meios de comunicação engolidos pelo medo, rabo-preso, interesse, indústria patrocinadora e outros.

Porém eu vejo outras histórias, e concluo que sim, perto de algumas outras "ditaduras", a nossa foi brincadeira, porém não vejo motivos para desdenhar o que aconteceu, foi triste o episódio, alguns tentam impor esses anos, como tempos ruins para todos, mas não vejo a ditadura como um peso sobre toda a nação, cabe a esse peso a "elite", que não se ve como parte do "povão", então que eles chorem pra lá, enquanto sambamos daqui.

Também não acho certo "criminalizar" quem tem opnião contrária, entendo igualdade de pensamento por "manipulação", e triste será um futuro onde todos tenham os mesmos pensamentos. Duvidar do holocausto, diminuir os traumas causados pela ditadura brasileira, ou qualquer outro, é direito, cada um pensa como quer. Tentar impor o próprio ponto de vista ao outro, é sim o mesmo que totalitarizar o direito ao pensar.

O Holocausto, citado no ínicio do texto, é sim hoje uma máquina de fazer dinheiro, se chora demais o holocausto, e se lembra muito pouco os outros que sofrem, seria isso justo? Lembrar tanto o Holocausto, e simplesmente ridicularizar as outras vítimas, pois é o que fazemos, já se deram conta disso? Tanta informação, livros, filmes, documentários, notícias, discussões, questionamentos, tudo sobre um só dos vários episódios de horror da história humana.

Golodomor, os genocídios de Camboja, Ruanda, dos nativos das américas, que quase foram dizimados, e os dizimiados em algumas partes, e os que ainda são vítimas, nos dias de hoje.Os Soviéticos mortos na 2ª guerra mundial, que estimam ser cerca de 27 MILHÕES, 15 MILHÕES DE CHINESES também na 2ª guerra mundial, estima-se 12 milhões de mortes nos campos de concentração nazista, a metade foi de judeus, e a outra metade? As vítimas de Mao Tse-Tung na China, que estima-se ser um número máximo de 70 milhões.

Sinceramente, eu não brincaria e nem brinco com os sentimentos das vítimas do Holocausto e nem da Ditadura brasileira, mas "chorar" por eles como se "chora", esquecendo-se dos outros, tomado por um sentimento que em boa parte é produzido, de forma midiática-cultural, que na minha opnião exclui da lembrança da maioria as vítimas de outros episódios tão horrendos, não, não faço.

As fronteiras são dos homens, tanto faz as vítimas serem daqui, ou serem da China, são todos vítimas, o que não posso é canalizar todo o sentimento a um ou dois casos, sendo que tantos outros ocorreram e ocorrem ainda hoje. A fronteira, a bandeira, o hino, são símbolos de guerra, para criar sentimentos que levam o homem a fazer o que faz. Enquanto a ditadura? Não se enganem porque ela ainda esta aí, disfarçada de democracia, agindo sorrateiramente!

Lingua de Trapo disse...

Dois, muito bem observado. Parece que alguns são mais alguns do que os outros. Lembra-se do caso do vigilante que foi chamado de macaco e crioulo aqui em BH? Ninguém se importou. Já a menina branca que simulou um ataque xenófobo ganhou as páginas de todos os jornais e as telas de todas as tvs e portais de internet. É difícil de entender não é?

Dois disse...

A pouco tempo fiz uma postagem ironizando sobre tal, e outra pedindo a alguns que cobrem, pelo menos cobrem, uma reação do poder público.

O que não podemos e nos fingir de mortos.

http://flipe.multiply.com/journal/item/483/483

http://www.lastfm.com.br/user/flipe/journal/2009/02/20/2i3m5h_racismo_em_minas%2C_sem_puni%C3%A7%C3%A3o_para_apadrinhados_do_estado.

Lingua de Trapo disse...

Caro Dois, excelente notícia. Ainda ontem procurei saber de um conhecido da Polícia Civil sobre o andamento deste inquérito. Felipe Augusto é você? Gostaria de saber, pois vou publicar as duas postagens no Língua de trapo. Vamos fazer pressão, pois só assim seremos capazes de combater a banalização do racismo neste pais. Um grande abraço.

Em tempo: o e-mail do blog está aí, caso queira entrar em contato, fique à vontade.

Dois disse...

Sim, meu nome é Felipe Augusto. :D

 

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