A FACE DO NOSSO HERÓI LARANJA

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Rosto de herói da Inconfidência Mineira divide pesquisadores
Gustavo Werneck - Estado de Minas

É bem possível que a verdadeira face de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), jamais chegue às páginas dos livros, à tela dos pintores e às vitrines dos museus. Passados 217 anos do enforcamento, ninguém sabe exatamente como ele era: se barbudo e cabeludo, parecendo Cristo, como mostra o primeiro registro, uma litografia de 1890 do pintor carioca Décio Villares (1851-1931), ou se quando alferes tinha o porte esguio e elegante, enaltecido num quadro de 1940, que se tornou ícone da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). Segundo os estudiosos, a figura messiânica, de túnica branca, foi criada logo no início da República, que precisava de um símbolo forte para sepultar, de vez, a imagem dos inconfidentes, cunhada no século 19, “como poetas e românticos”, diz o professor de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) João Pinto Furtado.

Autor do livro O manto de Penélope – história, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9, resultante da sua tese de doutorado, Furtado explica que a única referência visual existente sobre Tiradentes revela um “homem de olhar espantado”, aspecto que denotaria um caráter ansioso e presença de certo tique nervoso. “Mas, no fim da vida, ele não usaria barba. Ao ser preso, teve os bens sequestrados, mas deixaram que ele mantivesse na cadeia, conforme está documentado, um missal e duas navalhas, com certeza usadas para se barbear”, conta o professor.

O desconhecimento da face verdadeira do herói que, conforme a lenda, teve a cabeça roubada em Ouro Preto, depois do esquartejamento do corpo no Rio de Janeiro, sempre intrigou os pesquisadores. Em 1960, o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais formou uma comissão para cuidar do assunto e traçar o seu retrato. “Não chegaram a nenhuma definição”, diz o professor. Na década seguinte, novo grupo se debruçou sobre o tema, chegando à conclusão de que o rosto do herói seria liso, tendo em vista a posse das navalhas no cárcere. Nascido na Fazenda do Pombal, na época pertencente à Vila de São João del-Rei e hoje no município de Ritápolis, nos Campos das Vertentes, Tiradentes foi alferes (cargo equivalente a segundo-tenente da PM) da força pública, os Dragões, e comandou o patrulhamento no caminho novo da Estrada Real, na região da Serra da Mantiqueira.

No seu livro, o professor mostra vários momentos de Tiradentes, desde o desenho a nanquim de Villares, no qual Tiradentes exibe um olhar ameaçador, típico dos jacobinos da Revolução Francesa (ver quadro abaixo), até o uso na antiga nota de cinco mil cruzeiros. “O século 19 considerou a Inconfidência Mineira um movimento de intelectuais e de articulação de ideias. Já com a Proclamação da República, como o Estado era laico, embora com forte influência católica, Tiradentes foi cada vez mais idealizado à imagem de Cristo”, explica Furtado.

“Fisionomia à parte, é preciso destacar o compromisso de Joaquim José da Silva Xavier com a liberdade, da qual é símbolo no país”, diz o professor. Tiradentes conhecia muito bem o “momento histórico em que vivia e estava consciente das mudanças”, principalmente a partir das ideias iluministas, vindas da Europa no século 18, que estavam circulando na Capitania de Minas. Ele não era um intelectual, mas um ativista. Não sabia línguas e o seu encontro com Thomas Jefferson (1743-1826), autor da declaração da independência dos Estados Unidos e seu terceiro presidente, não passa de ficção.

3 comentários:

João Paulo disse...

Uma das coisas que se poderia fazer é estudar a descendência de José da Silva Santos, irmão do Tiradentes, e ver se este ainda tem descendentes atuais por varonia. Por aí poder-se-ia fazer um retrato supositício do Alferes, mais próximo da realidade.

Anônimo disse...

O incrível mesmo... é a carência brasileira de heróis.

Nossos heróis, atualmente, resumem-se à esfera esportiva. Talvez por isto, a idolatria a um bode espiatório persista pelos séculos.

A imagem forjada, o único condenado à forca era pobre e sem instrução. Falava demais - ativista - e foi o sangue que saciou a sede do império. Quem tinha posse foi exilado para mais tarde retornar à terrinha - o "jeitinho" já existia desde aquela época.

Yvy disse...

Luiz, vou me diplomar na blogosfera :).
Na formatura te convido, tá?. Kkkkkkkkkkkkk

Abrs. Bom Feriado !

 

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